Entry: Sete (Raclette '-;;-') Wednesday, April 21, 2010



Vou mastigando os vidros perdidos no chão da sala e cortando as maçãs em pedaços pequenos e assimétricos para misturar no sangue da minha cadela morta. Sally. Costumávamos passear juntos nos cemitérios dos subúrbios de Varsh. Procurávamos ossos, adornávamo-los com dentes e chorávamos os dois - eu chorava mais, no entanto - esperando que o vento penetrasse nos jazigos e os plantasse do nosso sal interno. Na verdade nunca ligaste muito a isso, pois não? Normalmente limitavas-te a olhar enquanto eu chorava todo o meu corpo numa espécie de colapso visceral e uivavas quando a melodia da noite te suspendia no vácuo da minha apatia. Por essa altura eu já não chorava nem sussurrava nem nada. Levantava-me lentamente e apertava os olhos com as palmas das mãos para os colocar dentro das suas órbitas, (os olhos, caso não saibam, são como os planetas e, às vezes, é bom lembrá-los que não lhes serve de nada sair da órbita já que, para lá disso, tudo é um buraco negro infinito a que teimamos chamar universo) olhava para a disposição da morte e percebia a sua horizontalidade. Baixava-me e escavava um pequeno buraco no solo onde deixava perdidos para sempre os restos das unhas que cortava. Fazia-o só porque tu acreditavas na reencarnação da matéria inerte e, sendo assim, é provável que ainda acredites, de outra maneira, claro.
A caminho de casa costumávamos encontrar alguns pássaros mortos, restos de guerras antigas, e como eu nunca gostei de carne de aves deixava-te comer tudo. Parecias sempre mais afável quando eu te deixava comer tudo.
À noite desaparecias misteriosamente mas eu não me preocupava. Fumava muito sozinho e ouvia algumas faixas do único CD que me resta do Coltrane até me dissipar por completo entre o cheiro amargo do tabaco e as notas finais de "Lazy Bird".  Quando desaparecias ias ser uma árvore de fruto a respirar a noite e o vento devagar; uma macieira.
Tento voltar a plantar-te muitas vezes, Sally, mas, na verdade, o meu ateísmo é um campo infértil, desculpa.


César Romeu, 2010


   1 comments

groze
April 25, 2010   05:53 AM PDT
 
(Uau.)

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