Entry: 2 (012 -.-') Thursday, February 04, 2010



É bom estar aqui fora a beijar-te com o coração em cinzas enquanto pelo mundo fora se ouvem rumores do novo ciclo que, dizem, vem para uma limpeza rotineira de vinte seis em vinte seis mil anos. Um desleixo desagradável, eu diria. A minha casa tem de ser limpa todas as semanas, às vezes mais do que uma vez, e a única coisa que resta por aqui, é o amor desfeito nas paredes a provocar fissuras que vou enchendo de lágrimas, poesia desperdiçada, fotografias do teu coração dentro de mim e restos de unhas cheias de ti... ainda tão cheias de ti que as amo, fingindo acreditar que as carregas ainda em sonhos, comigo. Restam ainda os teus cabelos que tenho tentado plantar nas mãos e na boca, para que me invadas, para que me cresças por dentro e me faças insuflar o amor até à exaustão e ao vómito e eu rebente, literalmente, como nos sonhos em que as estrelas, cansadas, se deixam inchar e explodem deixando as vísceras de fora a poluir o universo. Isto seria eu, se pudesse. Uma estrela com vísceras a rebentar em sangue e paixão deixando, no fim, o coração despedaçado a fermentar no meio da estrada.
Se continuares aí sentada depois disto, sou capaz de me apaixonar por ti e esperar que o amor seja reutilizável.
(Entretanto, se a Deusa Cósmica da limpeza chegar para limpar este pó intelectual que somos nós, espero que não use óleo de cedro.)

César Romeu, 2010 

   1 comments

groze
February 10, 2010   09:19 AM PST
 
Só para te deixar saber, César Romeu, que escreveste um texto genial. Com as habituais imagens maravilhosas e incrivelmente fascinantes.

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