Sunday, June 13, 2010
Oito (coito ~.~')

Abrir o corpo às palavras e plantar as unhas, uma por uma, nos campos de sementes de girassol. Parar a rotação cósmica dos olhos e apreender as imagens no seu perfeito estado de desintegração. É isto que resta da vida em que participo pouco activamente. Não me preocupo, de qualquer forma. A única coisa que me aflige é a inexistência. Não existir, o nada, o vácuo não perceptível é difícil de entender ainda que, provavelmente, seja apenas uma desculpa para a religião e, assim sendo, desperdiço-me em vão. Mas, até prova em contrário, admito uma explicação lógica ao inexistente e procuro-a com afinco suficiente ao suicídio de todas as plantas nocturnas.
Não procuro paz já que, de tantas coisas que não existem, várias me poderiam incomodar mais que qualquer humano morto e não pretendo diluir o meu fim no pré-princípio de todas as coisas, no entanto, tenho em mim a imaginação do inexistente perfeito e procuro-o, sempre embriagado de noites mortas nos cardos. Sento-me sempre na rocha mais a sul do Voniga, um pequeno rio monocórdico que abastece a cidade de mosquitos radioactivos e turistas putrefactos, (uma vez por outra construo um barco de papel azul, imagino-lhe um canhão de iões, e divirto-me a destruir os crânios intactos que por ali encalham por volta das seis e dezassete, dois minutos após a descarga de resíduos da fábrica de soldados) e evito tudo o que existe até (quase) percepcionar um resto de livro em cinzas. Depois disso acabo por chorar irritado com a ideia incongruente de que não existir possa ser um excesso mal aplicado de tinta negra e, esgotado, cuspo o sangue das flores para dentro de um copo. Verto-o para o rio e abandono o local lentamente imaginando uma não-coisa suficiente para suplantar o amor; não conseguindo choro de novo, quase convencido que, tal como o amor, o inexistente é uma impossibilidade.


César Romeu, 2010

Posted at 05:24 pm by César Romeu
Fissura  




Wednesday, April 21, 2010
Sete (Raclette '-;;-')

Vou mastigando os vidros perdidos no chão da sala e cortando as maçãs em pedaços pequenos e assimétricos para misturar no sangue da minha cadela morta. Sally. Costumávamos passear juntos nos cemitérios dos subúrbios de Varsh. Procurávamos ossos, adornávamo-los com dentes e chorávamos os dois - eu chorava mais, no entanto - esperando que o vento penetrasse nos jazigos e os plantasse do nosso sal interno. Na verdade nunca ligaste muito a isso, pois não? Normalmente limitavas-te a olhar enquanto eu chorava todo o meu corpo numa espécie de colapso visceral e uivavas quando a melodia da noite te suspendia no vácuo da minha apatia. Por essa altura eu já não chorava nem sussurrava nem nada. Levantava-me lentamente e apertava os olhos com as palmas das mãos para os colocar dentro das suas órbitas, (os olhos, caso não saibam, são como os planetas e, às vezes, é bom lembrá-los que não lhes serve de nada sair da órbita já que, para lá disso, tudo é um buraco negro infinito a que teimamos chamar universo) olhava para a disposição da morte e percebia a sua horizontalidade. Baixava-me e escavava um pequeno buraco no solo onde deixava perdidos para sempre os restos das unhas que cortava. Fazia-o só porque tu acreditavas na reencarnação da matéria inerte e, sendo assim, é provável que ainda acredites, de outra maneira, claro.
A caminho de casa costumávamos encontrar alguns pássaros mortos, restos de guerras antigas, e como eu nunca gostei de carne de aves deixava-te comer tudo. Parecias sempre mais afável quando eu te deixava comer tudo.
À noite desaparecias misteriosamente mas eu não me preocupava. Fumava muito sozinho e ouvia algumas faixas do único CD que me resta do Coltrane até me dissipar por completo entre o cheiro amargo do tabaco e as notas finais de "Lazy Bird".  Quando desaparecias ias ser uma árvore de fruto a respirar a noite e o vento devagar; uma macieira.
Tento voltar a plantar-te muitas vezes, Sally, mas, na verdade, o meu ateísmo é um campo infértil, desculpa.


César Romeu, 2010






Monday, March 22, 2010
Seis ( Os reis e as leis -.-')

As árvores plantadas ao longo dos passeios, durante a noite, são uma espécie de corvos que se alimentam da necrofilia exagerada do Homem. Restam poucas horas para adormecer e é só nisto que penso enquanto o colchão, sem lençóis, estende as suas raízes para me estrangular. É provável que morra hoje, debaixo das árvores sepultadas no passeio, agarrado aos seus ramos como ao meu avô materno, de faces rubras e bigode amarelo, morto a semana passada num duelo de vísceras, com consequências letais, depois de lhe retirarem o fígado e um metro de intestino com as unhas fluorescentes de fé. A fé é uma causa digna de morte, diz-se por aí, mas eu, recuso-me a aceitar morrer de maneiras estúpidas. Se durar até amanhã terei de preencher uns papéis feitos de pele e crivados de unhas explicando, dessa forma, como desejo a minha morte e se, por acaso, escrever que não a desejo, é provável que não morra. Acredito muito nisto, apesar de não ser esta a minha fé.
A velha Míriam, depois do seu quadragésimo sétimo aniversário, preencheu os papéis e decidiu morrer feliz. Foi uma má escolha. Ninguém pretende morrer feliz, por muito que isso pareça bonito. O meu segundo filho, Edgar, morreu logo após conhecer a deusa que lhe preenchia as entranhas de éter. Morreu feliz, sim. E de nada lhe valeu. Já a minha avó decidiu morrer nos braços de deus e, até hoje, tem respirado as flores que lhe restam no jardim para ir sobrevivendo a esta antiguidade quase inadequada dos seus cento e quarenta e seis aniversários, na esperança que os papéis voltem, nas abençoadas mãos cinzentas do carteiro, Jaques.
Ninguém morre sem os papéis, por aqui, decidiu-o o presidente da câmara Varsh, uma organização internacional que se vai movimentando em várias direcções pretendendo controlar o destino e a existência.
Quando recebem um envelope selado com sangue e meio olho de carneiro, as pessoas sabem que chegou o seu papel e decidem morrer com medo de represálias às quais, enfim, nunca ninguém se sujeitou (se é que existem).
Eu vou tentar não morrer, dizendo simplesmente que não quero, afinal, a vontade é um direito legítimo do homem e não mo podem recusar, apesar de tudo.
Ainda me falta beijar Joanne e isso aflige-me ao ponto de cortar os lábios para regar as duas plantas da minha varanda que dá para uma espécie de jardim nuclear feito de arco-íris e nuvens desfocáveis, a poente da europa.
As organizações que anunciam salvar o mundo têm plantado homens nos campos de trigo, e perco o resto da noite a pensar em ti.


 
César Romeu, 2010




Thursday, March 11, 2010
Cinco (um anel e um brinco -.-')

As notas plácidas do oboé invadem a rua enquanto a guitarra se quebra de sons exaustos e morre com dedos antigos a apodrecer entre as cordas. Somos todos medos e sombras que morrem, às vezes, no acorde inacabado de uma guitarra qualquer, deitada fora por cortesia. Sabemos a estanho quando nos perguntam, com os olhos embriagados de vida, quanto de nós é um abismo. A retina descola-se na dimensão da pergunta e é provável que nunca obtenham resposta. Sabemo-nos todos só pelo olhar. Amamo-nos. É estranho que façamos por gostar tão pouco uns dos outros.
As pessoas aparecem e desaparecem da plataforma como espíritos entre-cortados a movimentar o universo de um lado para o outro. O metro chega e com ele chegarias tu, se eu não te procurasse tanto. 
Em memória a todos estes corpos que restam na linha, talvez um dia faça uma fogueira de mim, dentro da primeira carruagem, contada pelos teus dedos que me servem de mão.

César Romeu, 2010


Posted at 02:47 pm by César Romeu
Fissura  




Thursday, February 18, 2010
4 (....)

Se me tocasses na cara com as mãos enregeladas e me beijasses com os lábios em decomposição eu saberia dizer-te em voz baixa meia dúzia de significados para um sorriso sem que, na verdade, acreditasse em nenhum deles. Dir-te-ia palavras estranhas que tu saberias não entender e mandaria aumentar a minha cama para lá caber sem ter de dobrar as pernas e calcificar os joelhos com minerais arrojados e mórbidos. Em suma tu servirias apenas para metade de uma cama num sonho. Não é grande coisa, para ti. Na realidade em que parecemos viver nem sequer teria coragem de aumentar a cama, em largura, porque sei que tudo se tornaria mais amplo e mais vazio, mais frio, mais decomposto do que este tamanho injusto que sou eu e desta carne escassa que me resta. Tu nunca lá estarias e o sonho dói mais quando parece existir sem se concretizar. Não me apetece mais que me doa. Dá-me só as tuas mãos frias e deixa-me adormecer com elas encostadas ao peito, adormecendo o coração à medida que o frio trespassa os ossos e penetra no tecido invisível da vida. "Este coração que aqui tens não passa de um músculo", dirias. E eu saberia explicar-te com cálculos estequiométricos e de probabilidade as quantidades exactas de músculo que são meus e teus, respectivamente, no meu coração.
Isto sou só eu a fumar o último cigarro que me resta enquanto o frio lá fora canta pequenas canções dos anos 50 e dança com cores estranhas de aurora boreal;
Talvez se eu apagasse este cigarro, ainda tivesse fôlego para incendiar um coração.

César Romeu, 2010




Saturday, February 13, 2010
3 (o número que deus fez ahah -.-')

A noite em si é um abraço de sorrisos em chamas que ainda sobra disto tudo que somos nós a preencher espaços físicos de coisas que não existem. Talvez já não acredites muito em mim mas lembrei-me de saber chorar quando vi os teus olhos mortos na boca dos gatos que adormecem na estrada. Sim, apetece-me chorar a palidez com que morreste nos gatos empalhados de vozes e palavras tuas feitas de bocados apodrecidos do meu coração. Porra. Está demasiado frio hoje e eu já não sei porque é que morreram estas criaturas oníricas dentro de mim nem consigo entender quem as tomou pelos braços e as arremessou avidamente para o passeio só para não incomodar os transeuntes.
Diz-me que amanhã teremos solstícios embrulhados de paixão e pessoas que dormem mascaradas de ti vão sonhar comigo e se vão apoderar de mim como crianças a corroer bonecos com os dentes enquanto perguntam aos pais qual a vertente bonita do sorriso. Eu saberia responder mas calo-me aqui a imaginar que poderei morrer amanhã e, no fundo, tudo o que faça agora será parcialmente esquecido pela voz estridente dos vendedores de fruta anónimos e repetidos no tempo, quase tão incessantemente como o Amor.
Numa personalidade que não a minha, eu teria nascido morto e chorar-me-iam como se acabasse a coisa mais perfeita do ciclo cósmico. Um vazio cheio de lágrimas paradas.
Sabes, ainda agora te conheci e já sei que não existes mas ama-me à mesma, pode ser?

César Romeu, 2010

Posted at 03:58 pm by César Romeu
Fissura  




Thursday, February 04, 2010
2 (012 -.-')

É bom estar aqui fora a beijar-te com o coração em cinzas enquanto pelo mundo fora se ouvem rumores do novo ciclo que, dizem, vem para uma limpeza rotineira de vinte seis em vinte seis mil anos. Um desleixo desagradável, eu diria. A minha casa tem de ser limpa todas as semanas, às vezes mais do que uma vez, e a única coisa que resta por aqui, é o amor desfeito nas paredes a provocar fissuras que vou enchendo de lágrimas, poesia desperdiçada, fotografias do teu coração dentro de mim e restos de unhas cheias de ti... ainda tão cheias de ti que as amo, fingindo acreditar que as carregas ainda em sonhos, comigo. Restam ainda os teus cabelos que tenho tentado plantar nas mãos e na boca, para que me invadas, para que me cresças por dentro e me faças insuflar o amor até à exaustão e ao vómito e eu rebente, literalmente, como nos sonhos em que as estrelas, cansadas, se deixam inchar e explodem deixando as vísceras de fora a poluir o universo. Isto seria eu, se pudesse. Uma estrela com vísceras a rebentar em sangue e paixão deixando, no fim, o coração despedaçado a fermentar no meio da estrada.
Se continuares aí sentada depois disto, sou capaz de me apaixonar por ti e esperar que o amor seja reutilizável.
(Entretanto, se a Deusa Cósmica da limpeza chegar para limpar este pó intelectual que somos nós, espero que não use óleo de cedro.)

César Romeu, 2010 




Sunday, January 31, 2010
1

Esta cidade decrépita e mórbida, que resta, serve de tão pouco nas minhas mãos cansadas e desconcertadas, meu amor. Tu, secalhar, não entendes as flores em cinzas que te embrulhei em caixas de cartão azul e cinzento e te ofereci já com as unhas a sangrar uma constelação de palavras entornadas no tapete, mas a verdade é que isto é tudo o que sobra depois de me esgotares os dedos com que te toco e te explico as sensações mais simples como o frio, o medo, a música, o arrepio, as estrelas ou a estética.
Entretanto vou-me dissipando horizontal, mecânico e céptico. Lá fora as crianças são uma poesia desconhecida e eu já nem me importo, já nem ouço como dantes. Agora sou só aqui deitado com o sexo a apodrecer na mesa de cabeceira e tu lá ao fundo, desenhada na terceira moldura amarela e lilás da minha cómoda antiga e mastigada de poemas perdidos e caruncho (mais caruncho que outra coisa, no fundo).
Diz-me, por favor, que ainda existo e me podes plantar um malmequer no coração. E que o regas todos os dias com a saliva que sobra das palavras.

César Romeu, 2010

Posted at 07:21 pm by César Romeu
Fissura  




 



César Romeu
August 24th 1991  (Age 25)
Male








 
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embriaguez de vinte cêntimos

Parecemos destrutivos neste propósito
estranho de permanecer vivos no sono
interno que nos mantém desiguais
e debitamos primaveras. estações. medos.
escutamos violência porta a porta
sabemos os lugares em que as horas morrem
mas as dobradiças vão-se partindo e o mundo
são idades. e perdemos as nossas vozes
sem que cheguemos sequer a vociferar o amor
ou a sua sintaxe. tudo o que somos é música
em bares pintados de cinzento escuro e
em homens antigos que morrem antes de tempo
e entregam, afinal, as vísceras para adopção
ou para adoção - pós-acordo. e as vísceras
constroem cidades rosáceas e apodrecidas
por dentro. bebemos limonada e sonhamos muito.
Denegrimos sonhos comuns enquanto
caminhamos. e tudo se nos revela abruptamente:
Os rios de sangue sem caravelas, as morsas
obsoletas. os velhos em chamas a amar segredos.
Não parecemos tão bonitos ao longe quando morremos
e não somos. toda a cidade se nos apresenta.
Paredes cinzentas e vitrais cor de rosa escondidos
e sob o céu da boca explodimos de luz
e vomitamos existência sem pedaços, uma solidez
estranha que nos faz aguentar ao longo da noite.

groze & mortir
5/X/09



27/X/2008



groze & mortir





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