Sunday, June 13, 2010
Oito (coito ~.~')

Abrir o corpo às palavras e plantar as unhas, uma por uma, nos campos de sementes de girassol. Parar a rotação cósmica dos olhos e apreender as imagens no seu perfeito estado de desintegração. É isto que resta da vida em que participo pouco activamente. Não me preocupo, de qualquer forma. A única coisa que me aflige é a inexistência. Não existir, o nada, o vácuo não perceptível é difícil de entender ainda que, provavelmente, seja apenas uma desculpa para a religião e, assim sendo, desperdiço-me em vão. Mas, até prova em contrário, admito uma explicação lógica ao inexistente e procuro-a com afinco suficiente ao suicídio de todas as plantas nocturnas.
Não procuro paz já que, de tantas coisas que não existem, várias me poderiam incomodar mais que qualquer humano morto e não pretendo diluir o meu fim no pré-princípio de todas as coisas, no entanto, tenho em mim a imaginação do inexistente perfeito e procuro-o, sempre embriagado de noites mortas nos cardos. Sento-me sempre na rocha mais a sul do Voniga, um pequeno rio monocórdico que abastece a cidade de mosquitos radioactivos e turistas putrefactos, (uma vez por outra construo um barco de papel azul, imagino-lhe um canhão de iões, e divirto-me a destruir os crânios intactos que por ali encalham por volta das seis e dezassete, dois minutos após a descarga de resíduos da fábrica de soldados) e evito tudo o que existe até (quase) percepcionar um resto de livro em cinzas. Depois disso acabo por chorar irritado com a ideia incongruente de que não existir possa ser um excesso mal aplicado de tinta negra e, esgotado, cuspo o sangue das flores para dentro de um copo. Verto-o para o rio e abandono o local lentamente imaginando uma não-coisa suficiente para suplantar o amor; não conseguindo choro de novo, quase convencido que, tal como o amor, o inexistente é uma impossibilidade.


César Romeu, 2010

Posted at 05:24 pm by César Romeu

 

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César Romeu
August 24th 1991  (Age 25)
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embriaguez de vinte cêntimos

Parecemos destrutivos neste propósito
estranho de permanecer vivos no sono
interno que nos mantém desiguais
e debitamos primaveras. estações. medos.
escutamos violência porta a porta
sabemos os lugares em que as horas morrem
mas as dobradiças vão-se partindo e o mundo
são idades. e perdemos as nossas vozes
sem que cheguemos sequer a vociferar o amor
ou a sua sintaxe. tudo o que somos é música
em bares pintados de cinzento escuro e
em homens antigos que morrem antes de tempo
e entregam, afinal, as vísceras para adopção
ou para adoção - pós-acordo. e as vísceras
constroem cidades rosáceas e apodrecidas
por dentro. bebemos limonada e sonhamos muito.
Denegrimos sonhos comuns enquanto
caminhamos. e tudo se nos revela abruptamente:
Os rios de sangue sem caravelas, as morsas
obsoletas. os velhos em chamas a amar segredos.
Não parecemos tão bonitos ao longe quando morremos
e não somos. toda a cidade se nos apresenta.
Paredes cinzentas e vitrais cor de rosa escondidos
e sob o céu da boca explodimos de luz
e vomitamos existência sem pedaços, uma solidez
estranha que nos faz aguentar ao longo da noite.

groze & mortir
5/X/09



27/X/2008



groze & mortir





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