Monday, March 22, 2010
Seis ( Os reis e as leis -.-')

As árvores plantadas ao longo dos passeios, durante a noite, são uma espécie de corvos que se alimentam da necrofilia exagerada do Homem. Restam poucas horas para adormecer e é só nisto que penso enquanto o colchão, sem lençóis, estende as suas raízes para me estrangular. É provável que morra hoje, debaixo das árvores sepultadas no passeio, agarrado aos seus ramos como ao meu avô materno, de faces rubras e bigode amarelo, morto a semana passada num duelo de vísceras, com consequências letais, depois de lhe retirarem o fígado e um metro de intestino com as unhas fluorescentes de fé. A fé é uma causa digna de morte, diz-se por aí, mas eu, recuso-me a aceitar morrer de maneiras estúpidas. Se durar até amanhã terei de preencher uns papéis feitos de pele e crivados de unhas explicando, dessa forma, como desejo a minha morte e se, por acaso, escrever que não a desejo, é provável que não morra. Acredito muito nisto, apesar de não ser esta a minha fé.
A velha Míriam, depois do seu quadragésimo sétimo aniversário, preencheu os papéis e decidiu morrer feliz. Foi uma má escolha. Ninguém pretende morrer feliz, por muito que isso pareça bonito. O meu segundo filho, Edgar, morreu logo após conhecer a deusa que lhe preenchia as entranhas de éter. Morreu feliz, sim. E de nada lhe valeu. Já a minha avó decidiu morrer nos braços de deus e, até hoje, tem respirado as flores que lhe restam no jardim para ir sobrevivendo a esta antiguidade quase inadequada dos seus cento e quarenta e seis aniversários, na esperança que os papéis voltem, nas abençoadas mãos cinzentas do carteiro, Jaques.
Ninguém morre sem os papéis, por aqui, decidiu-o o presidente da câmara Varsh, uma organização internacional que se vai movimentando em várias direcções pretendendo controlar o destino e a existência.
Quando recebem um envelope selado com sangue e meio olho de carneiro, as pessoas sabem que chegou o seu papel e decidem morrer com medo de represálias às quais, enfim, nunca ninguém se sujeitou (se é que existem).
Eu vou tentar não morrer, dizendo simplesmente que não quero, afinal, a vontade é um direito legítimo do homem e não mo podem recusar, apesar de tudo.
Ainda me falta beijar Joanne e isso aflige-me ao ponto de cortar os lábios para regar as duas plantas da minha varanda que dá para uma espécie de jardim nuclear feito de arco-íris e nuvens desfocáveis, a poente da europa.
As organizações que anunciam salvar o mundo têm plantado homens nos campos de trigo, e perco o resto da noite a pensar em ti.


 
César Romeu, 2010

Posted at 05:17 pm by César Romeu

groze
March 23, 2010   11:18 AM PDT
 
(ainda bem que decidi mesmo vir ler-te, apesar de ter dito que não estava com cabeça para ler, porque este texto é, sem dúvida, dos melhores que li nos últimos tempos! de sempre, aliás. tem uma mistura de tanta coisa boa, tanto simbologismo maravilhoso aliado a uma certa... "mitologia" de vida quotidiana fantástica. ainda estou a tentar absorver a potência de certas imagens fabulosas que aqui conseguiste criar. uau.)
 

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César Romeu
August 24th 1991  (Age 25)
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embriaguez de vinte cêntimos

Parecemos destrutivos neste propósito
estranho de permanecer vivos no sono
interno que nos mantém desiguais
e debitamos primaveras. estações. medos.
escutamos violência porta a porta
sabemos os lugares em que as horas morrem
mas as dobradiças vão-se partindo e o mundo
são idades. e perdemos as nossas vozes
sem que cheguemos sequer a vociferar o amor
ou a sua sintaxe. tudo o que somos é música
em bares pintados de cinzento escuro e
em homens antigos que morrem antes de tempo
e entregam, afinal, as vísceras para adopção
ou para adoção - pós-acordo. e as vísceras
constroem cidades rosáceas e apodrecidas
por dentro. bebemos limonada e sonhamos muito.
Denegrimos sonhos comuns enquanto
caminhamos. e tudo se nos revela abruptamente:
Os rios de sangue sem caravelas, as morsas
obsoletas. os velhos em chamas a amar segredos.
Não parecemos tão bonitos ao longe quando morremos
e não somos. toda a cidade se nos apresenta.
Paredes cinzentas e vitrais cor de rosa escondidos
e sob o céu da boca explodimos de luz
e vomitamos existência sem pedaços, uma solidez
estranha que nos faz aguentar ao longo da noite.

groze & mortir
5/X/09



27/X/2008



groze & mortir





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