Thursday, February 18, 2010
4 (....)

Se me tocasses na cara com as mãos enregeladas e me beijasses com os lábios em decomposição eu saberia dizer-te em voz baixa meia dúzia de significados para um sorriso sem que, na verdade, acreditasse em nenhum deles. Dir-te-ia palavras estranhas que tu saberias não entender e mandaria aumentar a minha cama para lá caber sem ter de dobrar as pernas e calcificar os joelhos com minerais arrojados e mórbidos. Em suma tu servirias apenas para metade de uma cama num sonho. Não é grande coisa, para ti. Na realidade em que parecemos viver nem sequer teria coragem de aumentar a cama, em largura, porque sei que tudo se tornaria mais amplo e mais vazio, mais frio, mais decomposto do que este tamanho injusto que sou eu e desta carne escassa que me resta. Tu nunca lá estarias e o sonho dói mais quando parece existir sem se concretizar. Não me apetece mais que me doa. Dá-me só as tuas mãos frias e deixa-me adormecer com elas encostadas ao peito, adormecendo o coração à medida que o frio trespassa os ossos e penetra no tecido invisível da vida. "Este coração que aqui tens não passa de um músculo", dirias. E eu saberia explicar-te com cálculos estequiométricos e de probabilidade as quantidades exactas de músculo que são meus e teus, respectivamente, no meu coração.
Isto sou só eu a fumar o último cigarro que me resta enquanto o frio lá fora canta pequenas canções dos anos 50 e dança com cores estranhas de aurora boreal;
Talvez se eu apagasse este cigarro, ainda tivesse fôlego para incendiar um coração.

César Romeu, 2010

Posted at 06:18 am by César Romeu

groze
February 19, 2010   04:43 AM PST
 
Angustiado, angustiante, mas incrivelmente bonito.
 

Leave a Comment:

Name


Homepage (optional)


Comments







Previous Entry Home Next Entry
 



César Romeu
August 24th 1991  (Age 25)
Male








 
<< February 2010 >>
Sun Mon Tue Wed Thu Fri Sat
 01 02 03 04 05 06
07 08 09 10 11 12 13
14 15 16 17 18 19 20
21 22 23 24 25 26 27
28

Unlimited Free Image and File Hosting at MediaFire





embriaguez de vinte cêntimos

Parecemos destrutivos neste propósito
estranho de permanecer vivos no sono
interno que nos mantém desiguais
e debitamos primaveras. estações. medos.
escutamos violência porta a porta
sabemos os lugares em que as horas morrem
mas as dobradiças vão-se partindo e o mundo
são idades. e perdemos as nossas vozes
sem que cheguemos sequer a vociferar o amor
ou a sua sintaxe. tudo o que somos é música
em bares pintados de cinzento escuro e
em homens antigos que morrem antes de tempo
e entregam, afinal, as vísceras para adopção
ou para adoção - pós-acordo. e as vísceras
constroem cidades rosáceas e apodrecidas
por dentro. bebemos limonada e sonhamos muito.
Denegrimos sonhos comuns enquanto
caminhamos. e tudo se nos revela abruptamente:
Os rios de sangue sem caravelas, as morsas
obsoletas. os velhos em chamas a amar segredos.
Não parecemos tão bonitos ao longe quando morremos
e não somos. toda a cidade se nos apresenta.
Paredes cinzentas e vitrais cor de rosa escondidos
e sob o céu da boca explodimos de luz
e vomitamos existência sem pedaços, uma solidez
estranha que nos faz aguentar ao longo da noite.

groze & mortir
5/X/09



27/X/2008



groze & mortir





Links:

A liga de murphy
conFusão
dodoi
Em copo ou cone?
exanimatus
faz-me espéce
lonely Gigolo
O blog piegas
Papoilas à chuva
sombras
Talvez esperança









Creative Commons License
Parafernália by Mortir is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 3.0 Unported License.





Qualquer cópia de um texto aqui publicado requer a autorização expressa do autor. Caso contrário estarão a ser infringidas as leis de copyright em vigor asseguradas pelo serviço básico de direitos de autor de alojamento na Blogdrive









 
Contact Me

If you want to be updated on this weblog Enter your email here:




rss feed