Thursday, February 04, 2010
2 (012 -.-')

É bom estar aqui fora a beijar-te com o coração em cinzas enquanto pelo mundo fora se ouvem rumores do novo ciclo que, dizem, vem para uma limpeza rotineira de vinte seis em vinte seis mil anos. Um desleixo desagradável, eu diria. A minha casa tem de ser limpa todas as semanas, às vezes mais do que uma vez, e a única coisa que resta por aqui, é o amor desfeito nas paredes a provocar fissuras que vou enchendo de lágrimas, poesia desperdiçada, fotografias do teu coração dentro de mim e restos de unhas cheias de ti... ainda tão cheias de ti que as amo, fingindo acreditar que as carregas ainda em sonhos, comigo. Restam ainda os teus cabelos que tenho tentado plantar nas mãos e na boca, para que me invadas, para que me cresças por dentro e me faças insuflar o amor até à exaustão e ao vómito e eu rebente, literalmente, como nos sonhos em que as estrelas, cansadas, se deixam inchar e explodem deixando as vísceras de fora a poluir o universo. Isto seria eu, se pudesse. Uma estrela com vísceras a rebentar em sangue e paixão deixando, no fim, o coração despedaçado a fermentar no meio da estrada.
Se continuares aí sentada depois disto, sou capaz de me apaixonar por ti e esperar que o amor seja reutilizável.
(Entretanto, se a Deusa Cósmica da limpeza chegar para limpar este pó intelectual que somos nós, espero que não use óleo de cedro.)

César Romeu, 2010 

Posted at 05:33 pm by César Romeu

groze
February 10, 2010   09:19 AM PST
 
Só para te deixar saber, César Romeu, que escreveste um texto genial. Com as habituais imagens maravilhosas e incrivelmente fascinantes.
 

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César Romeu
August 24th 1991  (Age 25)
Male








 
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embriaguez de vinte cêntimos

Parecemos destrutivos neste propósito
estranho de permanecer vivos no sono
interno que nos mantém desiguais
e debitamos primaveras. estações. medos.
escutamos violência porta a porta
sabemos os lugares em que as horas morrem
mas as dobradiças vão-se partindo e o mundo
são idades. e perdemos as nossas vozes
sem que cheguemos sequer a vociferar o amor
ou a sua sintaxe. tudo o que somos é música
em bares pintados de cinzento escuro e
em homens antigos que morrem antes de tempo
e entregam, afinal, as vísceras para adopção
ou para adoção - pós-acordo. e as vísceras
constroem cidades rosáceas e apodrecidas
por dentro. bebemos limonada e sonhamos muito.
Denegrimos sonhos comuns enquanto
caminhamos. e tudo se nos revela abruptamente:
Os rios de sangue sem caravelas, as morsas
obsoletas. os velhos em chamas a amar segredos.
Não parecemos tão bonitos ao longe quando morremos
e não somos. toda a cidade se nos apresenta.
Paredes cinzentas e vitrais cor de rosa escondidos
e sob o céu da boca explodimos de luz
e vomitamos existência sem pedaços, uma solidez
estranha que nos faz aguentar ao longo da noite.

groze & mortir
5/X/09



27/X/2008



groze & mortir





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